sábado, 28 de setembro de 2013

#10 - Trabalhando no estrangeiro: a missão - Parte 2 - Visão Geral do Ambiente

Oie gente! Conforme prometido, vamos à parte 2 da saga :)

Depois que peguei o meu atestado e saí da clínica me restava ir para casa para relaxar de toda tensão,
mas lembrei que precisava resolver umas coisas no escritório do seguro social, pois o meu ainda não tinha sido enviado para minha casa. O escritório ficava uns 15Km distante o que para os padrões Houstonianos é até perto quando você pega as Highways (as estradas de alta velocidade que ficam dentro da cidade). Decidi ir lá, já que já estava na rua mesmo... até aí tudo bem.
No meio do caminho (e no meio da estrada) o litro de água que eu havia tomado na clínica começou a fazer efeito e cada micro oscilação que o carro fazia aumentava o meu desespero pra ir no banheiro pra me liberar do restante da água que estava urgindo pra sair. Foi aí que eu vi aquele gigante M amarelo se aproximando e eu lembrei que no Brasil, quando a vontade de fazer xixi apertava na marginal a solução era usar o banheiro do Mc Donalds. Quase como numa cena de velozes e furiosos dei uma girada brutal no volante para não perder a saída da Highway e parei no Mc. A parte estranha começa agora... Só depois que parei que eu percebi que o bairro ali não era assim tão amigável quanto os que eu costumava frequentar...

Pra não dizer que eu fui lá apenas para usar o banheiro, ainda tive a frieza de pensar em parar no balcão para pedir um McFlurry. Abri a porta do Mc andando mais estranho que a Valdirene da novela das 8 pra segurar minha bexiga e tinha 2 caras parados no balcão. Perfil negro de filme americano, uma mistura de P. Diddy \(antigo Puff Daddy) com Michael Jordan, uma touquinha na cabeça e as trancinhas saindo assim do lado. Quando um deles começa a falar.

Cara - Wow! Você é muito bonita.
Eu - Moça, bom dia, eu gostaria de um McFlurry oreo por favor (morrendo de medo de sequer olhar pra cara do homem, a vontade de fazer xixi chega se aquietou)
Atendente - A senhora quer que tamanho?
Cara - Lady, você é tão linda que eu tenho até vontade de cantar a sua beleza...
Eu - O menor. (o medo virou pânico)
Atendente - Qual o tamanho senhora? (a mulher parou de prestar atenção no que eu falava pra observar a cantoria do homem que começou a cantar alguma música com beautiful lady no meio num tom meio Justin Timberlake e dar uns gritinhos agudos entre uma estrofe e outra estilo Edson Cordeiro e fazer aqueles "uh, ahn" que a galera do hip hop faz).
Eu - O MENOR (pelo AMOR DE DEUS). Eu ignorava solemente aquela situação em que estava sendo literalmente cantada, como se eu estivesse sozinha com a atendente do Mc.
Atendende - Ok (a maldita se matando de rir da situação, juntamente com o amigo de "Michael Diddy", que n parava de cantar sua composição e ainda dava estaladinhas nos dedos pra marcar o ritmo).

Depois de 45 segundos tomada pelo pânico e vergonha, com o calor subindo e ficando vermelha querendo sair dali o mais rápido possível, parte da minha vida passou diante dos meus olhos, mas me lembrei do motivo que estava ali. Peguei o mcflurry na mão da mulher e corri para o banheiro, já avaliando se tinha uma saída na qual eu n precisasse passar na frente do cara de novo.

Depois dessa situação inusitada que precisava ser relatada vem o pulo no tempo onde viajamos com a família de Luiz para NYC + Vegas e voltamos para Houson para eles conhecerem aqui em casa. E na segunda fui para o meu primeiro dia de trabalho!!


Cheguei lá na recepção no horário combinado, vestida de acordo com o dress code (sim, eu recebi um email com dezenas de instruções do que era permitido ou não usar - nota: não é permitido ir de calça  jeans nem camisa polo)e antes de abrir a boca pra falar qq coisa a recepcionista: "Vc é a "Lourêinah"?. Fiquei impressionada, parecia até que o pessoal estava na espreita... Ai ela me veio com mais alguns papeis pra assinar e pediu pra eu entrar pela porta ao lado. Nisso a mulher falou alguma coisa rapidinho, me encostou na parede, já sacou uma câmera e tirou uma foto minha. Eu ainda meio atordoada com o flash e com a situação nova perguntei:
- É pro crachá?
- Sim, e aqui está o seu crachá provisório, seu crachá do estacionamento, a sua pasta de boas vindas, a sua caneca (!) e a sua plaquinha com o seu nome para colocar na mesa. Pode me aguardar aí fora de novo por favor...
(5 minutos depois)
- Pronto "Lourêinah", eu estou pronta para você agora (só agora?!). Este aqui é seu notebook, vamos lá em cima na sala da sua chefa e eu vou preparar o seu lugar enquanto conversa com ela.


Eu estava em choque com a eficiência e praticidade. Simplesmente seguia o que a moça mandava eu fazer. Depois do papo com a chefe fui lá sentar na minha baia e achei meio estranho que os caras que compartilhavam o lugar comigo não me deram bom dia. Ok.. Deviam estar ocupados.. pensei. Depois eu vi q não era nada disso... a eficiência aqui é levada beeem a sério... tem gente que nem sai pra almoçar pra acabar o que tem pra fazer e ir pra casa cedo... tem dia que por volta do meio dia sobe aquele cheiro de pipoca de microondas... é o almoço de muita gente. Parar para bater aquele papo e saber das novidades do dia com seu colega de baia não existe! Futrico no café então? NO WAY! Vou descrever algumas situações que eu passei nessas primeiras semanas pra vocês entenderem a essência de se trabalhar num escritório americano e os micos que paguei na adaptação, mas como esse post já tá muito grande vou escrever outro em breve descrevendo com detalhes as situações abaixo para vocês não se cansarem!

CONTATO DE PRIMEIRO GRAU
REUNIÕES
CONTROLE DE ACESSO NAS ESCADAS
ALMOÇO COMEMORATIVO
COCA COLA NA COPA
SEXTA FEIRA É DIA DE CASUAL DAY

See ya!!

sábado, 21 de setembro de 2013

#9 - Trabalhando no estrangeiro: a missão - Parte 1 - O Processo Seletivo

Oi pessoal, depois de um período sabático, o blog voltou! E obrigado por todos aqueles que cobraram a gente por novos posts. Agora eles voltarão!! Tivemos que dar uma pausa porque passamos por um período agitado aqui com viagens seguidas, processos de emprego, visitas da família e otras cositas mais. Desculpas devidamente pedidas vamos ao novo post.

Como a maior parte já sabe, eu vim para cá para os EUA com o visto L2, que nada mais é que um visto de cônjuge de visto L1, que é um visto de trabalhadores qualificados transferidos pela mesma empresa (que é o caso do Luiz). Uma das boas coisas da categoria L para visto é que o cônjuge pode trabalhar, mediante uma autorização da imigração e com uma carteirinha conhecida popularmente como "work permmit". A primeira coisa que fizemos quando cheguei aqui foi dar entrada na papelada para tirar essa permissão porque o cargo de 100% dona de casa, definitivamente, não casava com o meu perfil agoniado de ser.

Desde o Brasil, eu já fica mandando CV e preenchendo formulários para a minha area de engenharia, mas o fato de ainda não estar morando nos EUA influenciava. Recebi alguns emails de "adoramos seu curriculo, mas como vc n mora aqui, vamos seguir com outros candidatos". Depois que cheguei, surgiram umas novas oportunidades na mesma empresa que eu e Luiz trabalhávamos no Brasil e, tchan tchan tchan tchan: fui chamada pra entrevista! Depois do momento de euforia, veio o pânico: a única entrevista que fiz na minha via foi pra entrar no programa de estágio e sempre trabalhei no mesmo lugar... agora além de tudo era entrevista como profissional e... em inglês, que convenhamos, o meu está longe de ser fluente...

Como estou tomando aulas de inglês, pedi a professora para reforçar esse ponto de entrevista profissional e ela veio com 3 livros sobre entrevista de emprego e foram dias e noites e horas e horas lendo e me preparando para não gaguejar, travar e ainda, de quebra, mostrar minha experiência profissional. E no dia da entrevista, deixei Luiz no aeroporto (pq esse homem só faz viajar desde que chegou aqui, rs), e fui pra casa me preparar para o momento tentando me manter zen e não entrar em autocolapso.

A entrevista até que correu bem, eram 3 pessoas de uma vez me entrevistando metralhando uma pergunta atrás da outra, pra ver se eu sabia explicar cada bullet do meu currículo. Por sorte, eu usei um blazer pra esconder a pizza enorme que se formava embaixo do meu braço, porque eu estava suando mais que cuzcuz no fogo e minhas mãos estavam geladas. Assim que me levantei da cadeira chique de couro da sala de entrevista e me despedi dos entrevistadores, dei aquela olhadinha rápida para o lugar que eu estava sentada e morri de vergonha... eu suei tanto que as duas marcas das minhas pernas molhadas estavam na cadeira, como se eu tivesse tido incontinência urinária... pedi a Deus que nenhum dos entrevistadores tivesse visto aquilo. E voltei pra casa, deitei no carpete mesmo e fiquei ali naquele estado letárgico até anoitecer, tentando repor minhas energias.

Depois disso foram duas semanas esperando pra saber o resultado, quando às 05:30 da manhã de uma sexta-feira recebi a ligação! Vocês podem estar estranhando 05:30 da manhã?! Não... o pessoal não é tão workaholic assim... é que eu estava acompanhando Luiz na califórnia e lá são duas horas a menos, aqui em Houston eram 07:30 já... eu dei um pulo na cama, me desequilibrei e quase me estribuchei no chão e falei: "Luizzzz, é um número de Houstoooon" e fiquei fazendo aqueles aquecimentos na garganta pra moça do RH não reparar que eu estava no milesimo sono. Eu tinha certeza que era o pessoal me ligando.

Atendi.

- Alô. (tentando soar o mais naturalmente possível dentro da minha agonia)
- Alô, é Lorena?
- Sim, sou eu..
- Olá, aqui é Fulaninha XYZ, do departamento de RH da Empresa, tudo bem?
- Oi! Tudo bem e vc?
- Tudo maravilhoso!
- Ótimo!
- Estou ligando para te informar que você foi selecionada para a vaga. Você tem interesse na posição?
- Sim! (pergntando a macaco se que banana, baby?!)
- Ok, em breve te enviaremos um email com a oferta formal e informações sobre a verificação internacional do seu background e o seu teste de drogas.
- Verificação do background? (como assim?!)
- Sim, sim... precisamos ter certeza que você não é uma criminosa, nem nada assim no Brasil... Leva mais ou menos duas semanas, vc vai ter que preencher alguns formulários (quando ela disse alguns, na verdade ela queria dizer milhares) e vamos te enviar o nome da clínica para você ir fazer o teste de drogas. Podemos marcar o seu início daqui a 3 semanas?
- Ah tah...ok então! Daqui a 3 semanas!
- Muito obrigada, e seja bem vinda!
- Obrigada a você!

Depois de fazer uma espécie de dancinha da vitória antes das 06 da manhã e ver Luiz, apesar do sono, dar uma risadinha e me dar um parabéns caloroso, voltei a dormir.

Voltei pra Houston e comecei a preencher as dezenas de milhares de formularios, sempre reconhecendo que "se eu estivesse mentindo ou omitindo dados eu poderia ser criminalmente penalizada e extraditada dos estados unidos". Perdi a conta de quantas vezes tive que dizer ok, eu entendo isso. E tive que mandar informações de toda a minha vida pregressa no Brasil, onde morei e trabalhei ons últimos 10 anos, certidões de todo o tipo, histórico medico e etc etc etc (acho que esse povo faz investigação de vidas passadas... pra ver se vc cometeu algum crime no ano de 1600 quando vc vivia na sua capitania hereditária).

O exame de drogas tb foi curioso. Achei que fosse ser exame de sangue. Aí cheguei na clínica, preenchi mais formularios, e esperei. Fui pega de surpresa quando fui chamada na sala e vi que não era através do sangue que eles iriam verificar que eu estava "limpa"... era através da urina. A moça, falando mais rápido que a nêga do leite, me deu um potinho e disse que eu teria que encher até um determinado ponto senão o teste seria invalidado e etc etc etc... Foi tanta informação e condições a serem seguidas que fui pro banheiro e o xixi simplesmente não queria cooperar e parecia ter fugido como o diabo foge da cruz. Com a cara de vergonha, alguns minutos depois, cansada de mentalizar cachoeiras e aguas correntes pra ver se ajudada, e o pote vazio saí.. olhei para a cara da moça e disse:
- Err.. não consegui..
- Ok... vou colocar aqui que a quantidade de amostra não foi suficiente, obviamente, pq vc n tem amostra nenhuma. Vc tem 3h para nos fornecer uma nova amostra satisfatória e tem agua lá fora para você ficar tomando. Se vc não urinar em 3h nós vamos entrar em contato com a empresa para ver o que eles querem fazer. (me prendi pra não dar risada).
- Ok.
- Quando você achar que está pronta vc avisa a qq pessoa na recepção.
- Ok... (vou falar o que gente... oi, quero fazer xixi).
- E ATENÇÂO, isso é MUITO IMPORTANTE, não saia do predio ou o teste sera invalidado. (pq? vou mandar minha irmã gêmea vir e fazer xixi no meu lugar?! Mas n quis perguntar nada...)

Tomei 2 garrafas de quinhentos ML,  mal conseguia me mexer com a bexiga tão cheia e finalmente a vontade veio. Não queria perder a chance de começar no novo emprego porque não conseguia fazer xixi... Fiz o teste, o resultado sai na hora, pois eles botam o potinho de xixi numa máquina super moderna que dá o resultado em segundos... peguei meu atestado de não drogada e fui embora da clínica.

Estava tudo lindo e correndo bem... tirando o leve medo de ser atacada no Mc Donalds (cena do próximo post)... E foi nesse momento que me dei conta de que a odisséia de verdade ainda estava por começar: trabalhar e me comunicar em inglês o tempo inteiro... com pessoas novas, cultura e ambiente diferentes... e aí, novamente, o pânico começou a tomar conta, hahahaha.

Em breve postarei a segunda e mais divertida parte do texto que é o que aconteceu depois que saí da clínica e como foi a minha primeira semana de trabalho. Porque esse post já está grande demais!! Posso adiantar que é tudo beeeeeem diferente do Brasil.

Beijos para todos!